o nosso século: 25 de Abril – Parte III (Cont.)
Continuação da terceira parte do programa apresentado pelas jornalistas Fernanda Mestrinho e Diana Andringa dedicado ao 25º aniversário da Revolução de 25 de Abril de 1974, assente em reportagens e com a participação em estúdio de Eduardo Lourenço, Boaventura de Sousa Santos, Camilo Mortágua, Carlos Castelo, Ana Drago e Miguel Romão.
Resumo Analítico
Eduardo Lourenço, filósofo, considera que o documentário parece paradigmático do carácter utópico da revolução, ressalta a sua não-violência e que parece que se volta ao século XIX e que, numa primeira fase, os trabalhadores tomam consciência da sua condição de servos da gleba porque não possuem nada. 06m00: Boaventura Sousa Santos interrompe para dizer que o que mais impressiona os camponeses da cooperativa de Barcouço, nas excursões ao Alentejo que faziam nessa época, é ver que as casas dos trabalhadores terminam na porta traseira sem haver um quintal onde se plante umas batatas ou couves. 07m00: Eduardo Lourenço refere o drama que se vive no Alentejo e Ribatejo, na grande propriedade, dos senhores feudais que já só existem na América Latina e conclui que uma ação como a ocupação da Herdade da Torre Bela já não é possível, porque a Torre Bela é o Centro Comercial Colombo, a dimensão onírica da posse ideal dos objetos desejados obtém-se agora pela sociedade de consumo. 10m17: Camilo Mortágua, líder da ocupação da herdade da Torre Bela, refere o alcoolismo como uma consequência do modo de viver à época da ocupação, em que os homens para conseguir trabalho sujeitam-se a ser escolhidos e aqueles que não são comprados naquele dia vão para a taberna; Eduardo Lourenço recorda os livros de Vergílio Ferreira "Vagão J." e "Aparição" sobre a separação de dois mundos opacos. 13m07: Reportagem "palavras datadas". 16m30: Diana Andringa apresenta Carlos Castelo, Ana Drago e Miguel Romão, jovens nascidos após a Revolução de 25 de Abril de 1974, que comentam o acontecimento histórico e eventos referidos ao longo do programa, destacando-se Carlos Castelo afirmando que o programa é uma desconstrução que visa a construção de um legado isento e esclarecido e que a revolução abre portas à intervenção popular e consciencializa como sujeitos ativos e questiona como se pode regressar a esta democracia participativa. 19m17: Boaventura de Sousa Santos concorda com o grande dinamismo da fase inicial de democracia participativa que logo depois se trava com a institucionalização da normalidade da democracia representativa e considera que a atual sociedade portuguesa está bloqueada. 22m00: Ana Drago refere que o discurso da revolução é muito claro, sem ambiguidades, e elogia a reportagem sobre a ocupação da herdade da Torre Bela e Eduardo Lourenço afirma que para a nova geração, esta visão da Revolução de 25 de Abril de 1974 é importante para repensar a revolução, quando na nossa sociedade o espetáculo, a mediatização e o virtual começam a substituir o próprio real. 28m20: Miguel Romão destaca o drama vivido provocado pelas diferenças de classes em Portugal, afirma que lhe parece existir um branqueamento do Processo Revolucionário em Curso (PREC) e das coisas boas desse período e questiona sobre se não há maturidade política para se abordar o federalismo e o futuro da Europa e Eduardo Lourenço defende que o Portugal de 1974 é pobre e não o foi mais por causa das remessas de dinheiro enviadas pelos emigrantes portugueses, pelo que é uma exceção no contexto da Europa onde se assiste ao triunfo da sociedade de consumo. 34m12: Boaventura Sousa Santos diz que a ocultação do PREC se deve à sua não normalização, uma vez que é a parte da revolução que incomoda e que coloca a nu as relações de classe e as desigualdades, apela a uma democracia participativa, ao associativismo e a uma sociedade civil mais organizada, pois é a única maneira de lutar contra um discurso político empobrecido.