o nosso século: 25 de Abril – Parte II (Cont.)
Continuação da segunda parte do programa apresentado pelas jornalistas Fernanda Mestrinho e Diana Andringa dedicado ao 25º aniversário da Revolução de 25 de Abril de 1974, assente em reportagens e com a participação em estúdio de Manuel Alberto Assunção, Maria do Carmo Tavares, Elisa Damião, Eduardo Lourenço, Boaventura de Sousa Santos, José Mário Costa e José Augusto Rocha.
Resumo Analítico
Entrevista a Manuel Alberto Assunção, contabilista, sobre a sua intervenção na empresa de alta costura "Candidinha" a pedido do Sindicato dos Têxteis, a dificuldade de reconverter pessoal de produção artesanal em produção de linha, em quantificar as dívidas do patrão, em adaptar o parque de máquinas existente à produção em série e em reutilizar a mercadoria de alta costura que há em armazém, acresce que as trabalhadoras estão mal informadas e sem receber salários há oito meses, vivendo da venda a baixo preço das confeções que realizam enquanto dura o stock. 06m55: Entrevista a Maria do Carmo Tavares, dirigente da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses - Intersindical Nacional (CGTP-IN), em que recorda casos semelhantes à "Candidinha", em que os patrões abandonaram as empresas, refere o boicote económico desencadeado pelo patronato com o intuito de testar os trabalhadores desempregados, a existência de sindicatos com direções representativas dos trabalhadores e da Intersindical e o controlo operário na cidade e no campo. 10m50: Entrevista a Elisa Damião, dirigente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), em que descreve o seu primeiro plenário na Lisnave, que se prolongou por oito dias, a eleição de uma comissão negociadora e a elaboração do caderno reivindicativo, defende que nestes 25 anos a mudança é pouca, o controlo operário às vezes controla operários em vez do processo produtivo e a estratégia empresarial e a falta representantes dos trabalhadores. 14m15: Eduardo Lourenço, filósofo, refere que os momentos de apropriação do espaço e afirmação de dignidade destas trabalhadoras anteriormente apontados são a essência do processo revolucionário, a passagem da situação de escravo à de senhor, uma encenação que lembra "L'Ile des Èsclaves" de Pierre Marivaux, em que depois de um naufrágio, chega-se a uma ilha e trocam-se os papéis. 17m05: Boaventura Sousa Santos, sociólogo, refere o processo de aprendizagem, em que uma sociedade fechada compartimentada abre-se num dado momento e cria campos de aprendizagem, como aprender palavras, como o mágico caderno reivindicativo, pois é através dele que se toma consciência de quem se é, do que faz falta e a que é que se tem direito. 19m00: Reportagem "julgamento burguês, julgamento popular". 29m34: Entrevista a José Mário Costa, porta-voz do Tribunal Popular de Tomar no julgamento de José Diogo, sobre o referido caso, reconhecendo excessos, a ajuda fornecida a José Diogo que não tinha condições financeiras e sociais para se defender, as peripécias que rodearam a morte do latifundiário Columbano Monteiro, a contestação contra a libertação de agentes da PIDE e a preconização de outro tipo de justiça, o Tribunal Popular como resposta moderada aos que as pessoas queriam, a partida de José Diogo para Moçambique e o seu regresso a Portugal onde é julgado e condenado a quatro anos de prisão. 33m50: Entrevista José Augusto Rocha, advogado, sobre a distância entre a justiça atual e os tribunais plenários do fascismo, o facto do Tribunal Popular de Tomar e o caso de José Diogo se ter constituído com grande surpresa, a defesa que fez em conjunto com o colega Amadeu Lopes Sabino, recorda a admiração do teólogo francês dominicano Jean Cardonnel, que admirado disse e cita "Nunca ter assistido à ocupação do tribunal, símbolo do poder da burguesia!", a constituição e organização do Tribunal Popular de Tomar na escadaria das instalações e o júri representado pelas comissões de trabalhadores e moradores. 39m46: Boaventura Sousa Santos afirma que há uma duplicidade, resultante das legalidades democrática e revolucionária, em que no tribunal existe a justiça oficial que não consegue decidir e, nas escadarias, uma outra justiça que emerge para vencer o impasse, relembra que a justiça oficial nesta altura está bloqueada, os julgamentos são adiados sucessivamente e a associação sindical dos procuradores do Ministério Público avisa que podem começar a assessorar os tribunais populares, refere o caso da ocupação de casas em que é arguida Maria Rodrigues e se passa no Tribunal da Boa Hora em Lisboa, a forte mobilização social não tolera esta paralisação e cria tribunais alternativos onde há conceções diferentes de justiça. 42m25: José Mário Costa e José Augusto Rocha analisam e refletem sobre a expressão "ato individual", portanto não revolucionário, associada à sentença de José Diogo, como ilustração do clima da época, realçando que não se pode legitimar que alguém mate alguém e José Augusto Rocha conta que a Ordem dos Advogados fez queixa contra si, devido ao seu peso reacionário, e que foi julgado e absolvido com os juízes de Tomar a depor a seu favor.